Química: o melhor e pior de Renato Russo

renato russo aborto eletricoDia desses resolvi criar vergonha na cara e assistir, enfim, Somos tão Jovens. Fã de Legião Urbana, tinha a curiosidade de saber como seu embrião, o Aborto Elétrico, e a Turma da Colina seriam retratados.

Enquanto via o filme, uma cena chamou a atenção: o momento em que Renato Russo vai ao ensaio da banda e apresenta Química aos colegas.

O batera Fê Lemos não gosta e o acusa de perder a mão. O letrista defende a composição, fica indignado, e o que seria um reencontro apaziguador transforma-se no fim do Aborto.


Parei pra refletir. Seria Química tão ruim assim, a ponto de servir de bode expiatório ao término da mais lendária banda brasiliense dos anos 80? Cheguei à conclusão de que tanto Fê quanto Renato estavam certos.

De fato, o começo da canção não tem nada de brilhante. Basicamente, trata do dilema burguês do adolescente saindo do ensino médio e que vê a porra do vestibular bater à porta. A proximidade forçosa da vida adulta. “Não saco nada de física, literatura ou gramática. Só gosto de educação sexual, e eu odeio química”. Versos que retratam bem o estilo de vida da Turma da Colina: jovens, de famílias abastadas, que não têm compromisso em seguir o padronizado estilo de vida dos pais e mães. Fê 1×0.

renato russo trovador solitárioA partir daí, Química se transforma. O rapaz que está trancado em casa e não pode sair reconhece a frivolidade do sistema em que está inserido, e mostra que não é apenas alguém dominado pela vontade de trepar.

Renato, intencionalmente ou não, denota a ambiguidade de si mesmo na letra. Sim, o personagem central não está interessado em gramática e ciências exatas, pra loucura da família. Porém, pior do que este aparente descaso é necessitar de aprovação em uma prova pra gozar de status e levar a vida em sociedade. Vida esta condicionada, inclusive, a tópicos pré-estabelecidos.

Não há espaço pra escolha. É preciso pura e simplesmente encaixar-se.

“Se você quiser entrar na tribo, aqui no nosso Belsen tropical, ter carro do ano, TV a cores, pagar imposto, ter pistolão, ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão, ser responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão, você tem que passar no vestibular”. Uma existência inteira baseada na aparência. Renato deixa tudo igual: 1×1.

Terminada a reflexão, entendi que Química reúne, simultaneamente, o que há de melhor e o pior em Renato Russo. O começo filhinho de papai, sem inspiração, cede lugar a um final extremamente afiado e crítico. A dualidade típica não somente da juventude, mas de todos nós.

PS: Somos tão Jovens é bem bacana. Se você for meio lerdo pra ver as coisas e as perde quando passam no cinema, como eu, vale a pena conferir. Principalmente nas cenas de ensaios e shows. O realismo é impressionante.

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