John Frusciante: uma vida que rende filme, e dos bons

frusçaSe tem um cara cuja trajetória daria uma baita película, este é John Frusciante. Do alto das 40 e tantas primaveras de vida, o citadino passou por poucas e boas, indo de guitarrista prodígio no fim dos anos 80 a morto-vivo na década seguinte. Numa incrível capacidade de recuperação, largou as drogas e mostrou que ainda tinha muita lenha pra queimar. Tanto no Red Hot Chili Peppers como fora dele.

De acordo com a música Gita, do nosso ilustre Raul Seixas, a vida musical do rapaz pode ser divida em três momentos, antes de seu renascimento: O Início, O Fim e O Meio.

O Início

fruça mother milk

John virou um Chili Pepper ainda piazão, em 1988. Com 17 anos, substituiu o ídolo Hillel Slovak, vítima de uma overdose de heroína.

Curtia a banda desde os 15. Era fã xiita. Ia a todos os shows e tocava quase todas as músicas dos três primeiros álbuns dos caras, tanto no baixo quanto na guitarra.

Em 1989, lançou o primeiro álbum com eles: Mother’s Milk, que também marcou a estreia de Chad Smith na batera. A contragosto, teve de se curvar ao produtor Michael Beinhorn e gravar zilhões de overdubs e licks calcados no heavy metal. Mesmo assim, é possível sacar o entrosamento sobrenatural com o baixista Flea. Exemplo disto é a instrumental Pretty Little Ditty.

A influência do cara, embora podada por Beinhorn, contribuiu pra que o som dos Peppers tomasse ênfase na melodia, e não mais no ritmo como antes. Em Knock Me Down, um dos carros-chefe do LP, John canta junto com Anthony Kiedis.

O disco chegou ao 52º posto da Billboard 200 e vendeu 500 mil cópias – melhor desempenho da banda até então.

O Fim

breaking the girl

Pra gravar o sucessor de Mother’s Milk, o Red Hot apostou no liberal Rick Rubin na produção. John pôde, enfim, tocar da maneira que quis: som limpo e simples, com efeitos apenas nos solos, harmonizando com Flea.

O resultado veio a público em 1991: Blood Sugar Sex Magik, que catapultou os caboclos ao estrelato com mais de 13 milhões de cópias negociadas mundo afora. Tentei separar algo em especial, mas não consegui. No álbum todo Mestre Frusça dá show.

Os concertos aumentaram em número e capacidade, as turnês cresceram e John não gostou. Queria sex, drugs & rock n’ roll, porém não daquele jeito. Os colegas de banda, principalmente Kiedis, não entenderam a birra.

As desavenças com o vocalista se intensificaram a ponto de ficarem quase um ano na estrada sem trocar uma palavra. No auge da frustração, Frusçaman errava solos deliberadamente, trocava riffs e era agressivo em partes suaves de canções. Aí, em maio de 1992, pediu o boné depois de uma performance em Tóquio.

O Meio

niandra ladesDrogas sempre desempenharam papel importante nas decisões do guri. Antes de se unir a Anthony Kiedis e Flea, cogitou tocar com Frank Zappa, que à época procurava um guitarrista. Desistiu ao descobrir que o cara proibia o uso de entorpecentes entre os colegas.

Já membro dos Peppers, percebeu estar no lugar certo quando viu Flea encher o cabeção de maconha antes de tocar. Resultado: aumentou consideravelmente o vício e adicionou heroína ao cardápio.

Quando largou o grupo, John fechou-se em sua mansão na Califórnia e entrou em depressão. Sua rotina passou a ser: pintar, escrever roteiros e gravar músicas num aparelho de quatro canais. Sair? Jamais. A busca pela “quarta dimensão”, aquela a qual ele se refere no início do famoso documentário Funky Monks, virou uma cruzada.

Em 1994, lançou o primeiro álbum solo: Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt. Inicialmente, a ideia era fazer dois discos – um com faixas escritas em meio ao Blood Sugar (Niandra Lades) e outro com composições da época da turnê do bendito (Usually Just a T-Shirt). Mas Frusça achava que ia morrer logo, e juntou tudo. O registro tem bons momentos, como a faixa Skin Blues, embora nada convencional. Vale a pena conferir.

John Frusciante - Vpro 1994 Documentary 109Crack e cocaína ganharam atenção extra e, ao lado da fiel heroína, consumiram a saúde do rapaz. Seus dentes apodreceram e tiveram de ser retirados para evitar uma infecção quase fatal. O cabelo começou a cair. Os olhos arregalaram-se e perderam a expressão, enquanto a voz ficou grossa e rouca. Picos deixaram marcas permanentes nos braços e o corpo ficou repleto de pontadas de cigarro – derrubava em si mesmo sem perceber.

O ator Johnny Depp – em parceria com Gibby Haynes, vocalista do Butthole Surfers – fez o documentário Stuff. No vídeo, feito por volta de 1993/94, vê-se o estado deplorável da mansão do guitarrista: lixo acumulado pelo chão, paredes manchadas com sangue e rabiscadas, instrumentos jogados, garrafas, pinturas e drogas.

Outro grande registro desta fase foi feito em 1994. Considerado um dos maiores documentaristas pepperianos, Bram Van Splunteren visitou o cara dois anos depois da saída do Red Hot e gravou uma entrevista à rede holandesa VPRO. O enérgico John Frusciante de outrora agora dava lugar a alguém que se alimentava de ração humana (daquelas dadas a inválidos), um “esqueleto coberto por uma pele fina”, como descrito em artigo do extinto jornal New Times LA.

A coisa tava tão preta que o citadino lançou o segundo trabalho solo em 1997, Smile From The Streets You Hold, só pra conseguir grana pra se entorpecer.

O trabalho mostra um Frusça frágil. Dá pra escutar uma tragada antes da primeira música e tosses no meio de outras. River Phoenix, ator promissor e irmão do Johnny Cash dos cinemas (Joaquin Phoenix), contribuiu em duas canções – que viriam a público anteriormente, não fosse sua morte relacionada (claro) às drogas.

Embora ruinzinho, o disco contém a interessante A Fall Thru The Ground, criada em 1988.

Recomeço

EXPERIENCE MUSIC PROJECTDepois de cinco anos vivendo como um junkie full-time, John parou. Internou-se numa clínica de reabilitação em 1997 em Pasadena (EUA), trocou os dentes podres por próteses e recebeu enxertos de pele onde os picos a haviam danificado. Descobriu a ioga e adotou hábitos alimentares saudáveis.

Retomou a carreira e se apresentou solo em algumas oportunidades, porém a falta de prática impediu o sucesso da empreitada – foram mais de dois anos sem botar uma palheta na mão.

Se por um lado Frusciante sofreu longe do Chili Peppers, a banda também passou por maus momentos sem ele. Seu substituto Dave Navarro, do Jane’s Addiction, não caiu nas graças dos fãs e de Flea, Chad e Anthony. Em 1998, acabou despedido.

Flea então visitou o recuperado John e o convidou a retornar. Juntos outra vez, os caras lançaram Californication, em 1999, e regressaram ao mainstream. Reaprendendo a tocar, Frusçaman investiu no minimalismo e no feeling, contrastando com o estilo de Navarro no trabalho anterior dos Peppers, One Hot Minute. A maior evidência é Scar Tissue. Deu muito certo: mais de 15 milhões de cópias vendidas e aclamação crítica.

Nessa segunda fase com o grupo, Mestre Frusça lançou ainda By The Way, em 2002, e o duplo Stadium Arcadium, em 2006. No primeiro, assumiu o controle criativo nos arranjos – causando atrito com Flea – e, no segundo, deixou de lado a vertente “menos é mais” e investiu em efeitos e solos, estilo Jimi Hendrix. Exemplos interessantes de cada um: Venice Queen e Readymade.

Em 2009, desta vez amigavelmente, deixou o Red Hot pra se dedicar à carreira solo e outros projetos.

Solo

rebirthSóbrio, John mostrou-se extremamente prolífico. Em 2004, só pra se ter uma ideia, gravou SEIS ÁLBUNS, entre coisas próprias e trabalhos com terceiros.

Seus projetos não foram nada lineares – álbuns acústicos, eletrônicos e outros com sonoridade roqueira –, o que torna a carreira solo do cara muito bacanuda.

Entre os discos que aconselho dar atenção especial, além do já mencionado Niandra Lades, separo os seguintes: The Will to Death (2004), meu favorito Inside of Emptyness (2004), e The Empyrean (2009).

Pra quem quiser ir fundo na obra, aqui vai o catálogo do cidadão (sem projetos paralelos):

1994 – Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt
1997 – Smile From the Streets You Hold
2001 – To Record Only Water for Ten Days
2001 – From The Souls Inside
2004 – Shadows Collide With People
2004 – The Will To Death
2004 – Inside of Emptyness
2005 – Curtains
2009 – The Empyrean
2012 – PBX Funicular Intaglio Zone
2014 – Enclosure
2015 – Trickfinger
2015 – Renoise Tracks 2009-2011

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