Contos e afins => Titãs x Ben Jor

telefone_pretoO telefone tocou. Fui atender. Na madrugada. Nada bom devia ser, auto-indaguei.

Uma voz abafada, dizia sorrateiramente: “dez dias”. Tique de relógio ao fundo. Dez dias pra quê? “Dez dias, meu filho (tom cada vez mais distante). Dez dias…”.

Desisti de dormir, vesti-me com as armas de Jorge e botei a cachola pra funcionar. Última semana de maio. Nada de feriado. Pendência do trabalho? Nhé, tempos de férias. Vai ver fosse conta. Mas quem ia cobrar alguma coisa àquela altura do campeonato, num sábado? Não ornava.

Sol abriu lá fora e eu na mesma. Cronos não se importa muito com dramas burgueses humanóides. 9 horas. Vizinha à porta. “Cê tem martelo?”. Sim. Emulava um zumbi, menos mártir do que o dos Palmares. Respondi monossilabicamente, pra dar ao cabo à questã. “Nossa, parece que vai fazer um calorão hoje, hein? Magina a hora do almoço”. Minha filha, isso aqui é minha casa, não um elevador. Bem que quis falar. Não consegui. Talvez por providência divina, sei lá. Acabei perguntando a ela a única coisa que me vinha à mente: “Tem algo importante pra acontecer daqui uma semana e meia?”. Arregalou os olhos, pôs o dedinho em riste (costume dela, vai entender) e bradou: “Não. Confie. Em. Ninguém. Com. Trinta. E. Dois. Dentes!”. Vazou.

Parecia importante. Forrei meu estoque de café e empenhei-me em desvendar o mistério. Por 8 segundos. Rolou preguiça, deitei no sofá e fui assistir The Mentalist. Quem sabe Patrick Jane não faria o trabalho por mim?

Esqueci do almoço, esqueci da vida, capotei. A patroa ficou louca. Aparentemente, era pra rolar uma corridinha no Barigüi. O que eu podia fazer? Meu universo tava paralelo, ora. Só me dei por gente novamente de noitinha, quando notei um bilhetinho na entrada: “seeete”.

Larguei os bets. Cadê a lógica? Juntei as trouxinhas, garrei os discos do Sabbath (prioridades) e me mandei. Ressonei no feudo do Batata – citadinos com alcunhas vegetais são mais confiáveis e invariavelmente têm comida, pode reparar. Desfiz o Grand Canyon que havia no estômago e relaxei. A memória até apagou momentaneamente a contagem regressiva quando resolvi retornar ao lar.

Subi os seis blocos de escada. Prédio tristemente antigo. Empunhei as chaves na fechadura. Senti-me observado e virei pra trás. A velha do andar de cima tava braba, me fitando tal qual o Astro Rei a bonecos de neve. Simplesmente soltou: “Miséria é miséria em qualquer canto. Re-sol-va”. Con-ge-lei.

Nem cinco minutos guardados, tampouco tento. A tensão acumulou tanto que não havia como aumentar. Achei quatro fichinhas no bolso. Interessante… Chamei a gangue pra um pôquer. Tarólogos sempre dizem que as respostas estão nas cartas, né. Quis conferir.

Mas que nada. Full houses, sequências sujas, trincas e flushes pouco serviram. Mentira, serviram sim. Ao menos garanti subsistência a curto prazo. Meus camaradinhas me respeitam e, graças ao Charles Anjo 45, jogam mal.

Saíram um por um, deixando-me solo com o pormenor ululante que pululava em minha mente mediana. Momento crucial. Das duas uma: ou deixava aquilo me corroer até tudo vir finalmente à tona, vivendo nessa jaula junto dos animais, ou ignorava e tocava o bonde mesmo assim. Letra b.

O telefone tocou novamente. Desta vez, não atendi.

Que pena. Que pena.

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