Contos e afins => Sobre a 1ª vez que Eurípedes ouviu o melhor do Who

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Seis da tarde. Céu cinza-irritado. Um daqueles sábados curitibanos típicos pra se ficar em casa, embaixo das cobertas. A estátua de Ganesha, pela primeira vez na história deste país, está na escrivaninha do quarto.

Dezessete. Anos de vida e camisetas jogadas em cima da cama. Apoiado à mesa do cômodo, senta vizinho à pilha e franze a testa. Três listras paralelo-acomodadas tomam forma sob os cabelos. Suspira fundo e decide não organizar a bagunça. O que pode dizer? Consegue nadar como ninguém.

Afundado cabalisticamente na cadeira, lança um olhar matreiro e diagonal, daqueles de fazer inveja à Capitu (a do Bento, não a do Maneco). Ligar o PC, duas polegadas à frente, parece hercúleo.

A natureza age. Gotas condensam no copo d’água que lhe faz companhia e refletem no monitor. Os ombros pesam: sinal clássico de que está procrastinando algo. Mas o quê? Oxigena o cérebro comendo uma maçã, de tom idêntico ao manto do Coxa que encabeça o Everest têxtil do leito. “Lembrei!”.

Tontura. Negligente à física, levanta mais rápido do que a máquina suporta. Minuto de introspecção, até a recuperação. Pronto. Hora de procurar o 1001 Discos Pra Se Ouvir Antes de Morrer em meio ao caos e folheá-lo – menos por empolgação, mais pra não perder a balada e desmotivar de vez. Já são meses de dedicação àquele projeto, afinal.

Trezentos segundos. A carroça liga quando bem entende, pois Blackie, o computador temperamental, saca que o tem nas mãos. É paciente, porém. Para, espera, confere as páginas da obra e faz um estudo prévio. Sacumé, preparar o psicológico pro que o aguarda.

Um é pouco, dois é bom, três é demais. Esperança e Inês praticamente dividem a sepultura quando percebe qual terá de ouvir. A gagueira do primeiro ouvido, bombardeando a geração acomodada, tampouco as paródias publicitárias do segundo conhecido pareciam bom presságio. “O terceiro”, pondera, “é a prova dos nove pra essa banda”.

Inicia enfim a jornada.

Arrebatamento logo de cara. O corpo sai da preguiça ao relaxamento do bem, movido pelos inesperados sintetizadores. Do set ao list, só coisa fina. Parece irreal.

O céu continua cor de elefante no sábado feio. O vento segue uivando e a montanha de roupa mantém sombra em Ganesha. O diferente, agora, é ele. Ser fotografado mijando ao relento, de repente, faz todo o sentido do mundo.

Depois do melhor, quem é o próximo? Está louco pra conferir. Agora não pode se dar ao luxo de desconhecer o restante da discografia Who.

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