Contos e afins => Dilemas burgueses de uma tarde ociosa de dezembro

granitoJuvenal levanta, de ressaca. Dia da semana? Nem sabe qualé. Maior que a mancha de Pinot Noir na camisa outrora branca, apenas o rombo no estômago. Vasculha alexandre-o-grandemente os armários do apê, em vão. Nada calórico e pronto a comer.

No controle da smartTV falta pilha, um ritmo que emula o estado de espírito do cidadão. Ir ao aparelho e apertar o botãozinho, convenhamos, complicadíssimo. Não é tarefa pra qualquer um.

A betoneira digestória segue a todo vapor. Ligar o PC no quarto? Talvez seja solução. Dar vida à Messi e Cristiano Ronaldo, enquanto sua própria se perde na névoa de incertezas da noite anterior. Num momento de deslize, arrasta a cadeira do cômodo além da conta, encerrando a vida útil do Mastercard que dormira no chão, solitário.

Deus desaprova assassinatos e, brincalhão que só, acaba com a luz do quarteirão. Fúria no Batel, pero no mucho, pois cinco da tarde. Ainda tem Sol. A conspiração, todavia, continua e o telefone manda um alô. Enxaqueca a mil. O morador faminto reza praquela merda silenciar e negligencia solenemente cada toque crescente insistente impertinente.

De repente, tudo parece acabado. Vai à sala: sofá rasgado. À cozinha: geladeira quente. Liga o som: estragado. Banho? Água fria. Corpo? Dolorido, adindo uma puta dor de ouvido. Até o livro do Saramago, empoeirado no criado-mudo, some.

O violão, velho companheiro, está cabisbaixo. Cordas velhíssimas. Mal dá pra montar melodia que preste. A mizinha, tadinha, parece um fio de varal, sobrevivendo por aparelhos e implorando pela eutanásia.

Numa súbita conjunção das forças que insistem em permanecer no corpo obediente às leis da acomodação, Juvenal dirige-se à janela, fitar a rua. Sete andares abaixo, um homem, solenemente ignorado por três transeuntes, remexe o lixo e cata um pão de canela. O mesmo que o observador jogara fora, 13 horas atrás, por estranhar o gosto do açúcar demerara.

O moribundo? Ah, esse sequer se importa. Ri como se a vida fosse bela, saboreando a iguaria e puxando a perna coxa. Mordisca ainda, entre cantigas de Natal aqui e ali, um fiapo de costela – certamente, a maior tranquilidade do mundo. No frio concreto, as paredes param de ecoar qualquer ronco estomacal. Compreensão. Do alto, entende-se o conto do ovo e bota-se uma aspirina insípida pra dentro.

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