Contos e afins => De migo pra comigo

download“Se eu pudesse mudar, o que mudava? Ah, acho que escrevia uma carta pra mim mesmo, mandando a real… Tipo assim:

Querido eu de 2006,

Cê é mané. Mané de burro, mesmo. De Garrincha, só as perna torta. Nasceu bem, cresceu de boa, só que né… Tinha que deixar o pensamento ruim te dominar… Virou no que é aquilo. Eu.

Piá é pra jogar bola, ler livro, sei lá. Não fugir de casa e ficar roubando carro pra desmanche. Trabalho é ruim, dinheiro é bom… Mas adianta de quê se um dia vai e outro vem?

Demora pra ir em cana, engana. Faz a gente sentir poder, além da conta. Dono do mundo é pouco. Roupa bacana, colar de ouro, dentinho brilhando, é fácil se perder. Aí a casa cai. Você acha que não vão te pegar, mas pegam. Torra tudo de uma vez. Sempre manjam. Sempre pegam.

Mané de burro, mesmo. Quase nunca teve pai, e isso dói. Fica martelando, não deixa ser feliz direito. Pra onde ele foi, por que ele foi… É tenso. Ele volta, te acha e você nem tchum. Fala pra morar com ele… E você, tipo: “vinte ano, cara!”. Quartinho de favor, até aguentar o tranco com as próprias perna. Complicado, eu entendo. Ausente confunde presença com presente, e a dor de antes incendeia a mente. Alguém me falou isso, uma vez. Nunca esqueci. Dele também não… Sei lá. Cê não precisava ser tão duro.

Amanhã tem igreja, aqui. Dá pra distrair, é bom.  Cê nem quer saber de religião, né? Devia mudar a cabeça, piá. Fica em paz quando Deus entra, desanuvia, saca?

Vida pune quem não aproveita. Largar escola é osso. Deixa mané. Mané de burro. Hoje eu tô aqui. Não tô feliz. Falta quinze pra sair, mas tanto faz… Aqui dentro ou lá fora, já nem importa. Comida pronta na mesa, amor de mãe mesmo, instrução, isso não volta mais. Sociedade tensa. Quem tá fora não entra mais nem a pau.

Tenho salvação não, piá. Cê tem. Esquece a vida fácil. Batalha, sua de verdade. Ganha o que é teu de direito, sem tirar o dos outro. Cê é mané, mas não precisa ser pra sempre. Toma rumo, depois a gente conversa.

PS: Ano que vem, cê vai querer brigar na entrada da Vila com uns nóia. Pelamor de Deus, não vai pra lá com a arma. Deixa ela na gaveta do criado-mudo e esquece. Soca uma almofada depois, sei lá, mas não faz merda. Só isso.

Abraço,

Teu destino de 2021, se cê não emendar”.

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