Contos e afins => Futebol paraense

futebol paraenseSaiu da Bahia, precisando chegar a Santarém. O dinheiro, vendaval, sobrou nada. Nenhum vintém. Motocicletas pela estrada, poeira dezembrina subindo em cada esquina. Um menino ali largado, lhe sorriu:

– Tem troco, ô gente fina?

Respondeu “pior que não, perdi tudo o que tinha em Salvador. Tô rumando até o Pará, tentar a vida de jogador”.

A pé continuou, caminhando pelo acostamento. Parou em Santa Rita. Corpo precisando de alento. Procurando emprego, encontrou um fazendeiro do Sergipe. O cabra contou que dava casa e salário. Condição: trabalhar na sua equipe. Tinha propriedade meio grande, lá pelas bandas de Balsas. Abandonara Aracajú fazia ano. Negócio: soja.

Convencido, pois, operador de maquinário virou sua função. Naquela fazenda, ficou quase todo o verão.

Dois mil e onze, primeiro trimestre. Cansou e saiu de lá. Juntou graninha e viajou à Marabá. Rodoviária lotada. Panfleto de peneira. Organizada pelo Águia bem no Zinho de Oliveira. Oportunidade.

– O que que você quer aqui? Não tá um tanto velho?

“Ah, nada disso, não senhor! Jogo muito, atacante bem do sério”. A garotada estranhou ver rapaz de 18 na cal. Mas, quando a bola rolou, ele fez do campo jardim de quintal. Impressionou. Ganhou contrato de mil pila por mês. A vida começou a melhorar pro novo camisa 23.

A saudade da família passou a apertar. Largara Feira, pai e mãe há mais de 100 dias, só pra jogar.

Escola? Dava ruim. Fazer lição era de matar. Gostava mesmo de Educação
Física – e conversar. Repetiu a 8ª série quatro vezes. Bola o dia todo. Maínha aquilo odiava. Paínho no fundo nem ligava. Perto dela disfarçava:

– Toma pruma na vida, pra poder viver com paz!

Cogitou entrar no juvenil do Bahia da Princesa do Sertão. A mãe, vish, disse chega. Bacuri não aguentou: do lar saiu sem eira nem beira.

Jogar no Águia era bom, mas o sonho continuava longe. O Gigante é que tava na linha do horizonte. Crescera ouvindo o vô contar histórias de lá. Do impávido Colosso de Tapajós, de Cuiú e de Guajara.

Atuando em Marabá conheceu uma ativista, que odiava Belo Monte e falava sem parar dos índios de Altamira.

Mina batuta, dona de carro e cabeça. Tudo que ele queria. Resultado: rescindiu com seu clube. Santarém mais perto da mira.

Por lá, confusão a torto e direito. Governo e tribos apenas brigando. Arranjou trabalho num dos canteiros da usina. “O quê?”. A garota, quando soube, ficou em pranto.

Novamente sem rumo, comprou passagem à sua Canaã nortista. Lá chegando, delegação do Gavião Kyikatejê à vista. Podia ter relação com o time dos sonhos? No olho, caiu um cisco. Tinha mesmo: estavam lá pra pegar ELE – o São Francisco.

Amistoso preparatório ao Estadual. Justo contra o rival do Águia, antigo lar. Chance de ouro. Nem a pau poderia deixar escapar.

Seguiu os jogadores da rodô até o estádio do Leão. Se passou por roupeiro, pra entrar na concentração. No vestiário, time reunido ouvindo a preleção. Aproveitou o momento e soltou a lábia ao treinador. Contou com paixão a meta da existência: atuar no Azulão.

O comandante, ego inflado, sorriu. O deixou assistir à peleja no banco de reservas. Sublime arrepio.

Dias depois, fez teste e passou na seleção. Mandou carta à Feira, comunicando aos seus. Voltou a falar com maínha a cada semana, o cidadão. Molenga, ela até perdoou a evasão.

Missão cumprida. Foi finalmente integrado ao grupo do Leão. Atuou na divisão de acesso daquele Parazão. O desempenho? Melhor que a encomenda. Titularíssimo, ajudou o São Francisco a ser vice-campeão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s