João Paulo II no Brasil: cartolas anistiam boleiros em sua homenagem

papaTensão no ar. Quarenta e quatro minutos do segundo tempo, e nada de gols naquele 9 de julho de 1980, no Pacaembu. Portuguesa no ataque. Enéas dribla Wladimir a poucos passos da grande área e é derrubado pelo lateral esquerdo. Márcio Campos Sales, o árbitro, aponta pênalti sobre o meia-atacante.

Fúria nas arquibancadas. Inconformada, a Gaviões da Fiel balança o alambrado e incita Jairo, que levanta os braços e mexe com o coreto. “Ah, tem mais é que agitar mesmo!”, brada o goleiro corintiano.

Fervente, o caldeirão transborda torcedores alvinegros no gramado. Invasão. Sales não vê garantias suficientes e o duelo, válido pelo Paulistão, acaba ali mesmo. Sem cobrança de penalidade nem nada.

Na súmula, Jairo é culpado. Sem aqueles membros superiores ao ar, na ótica do juiz, não haveria Fiel em campo. Argumento convincente pro Tribunal de Justiça Desportiva (TJD), que suspende o atleta em 120 dias.

Eis então que a providência divina entra em ação. Em 19 de julho, é publicada no Diário Oficial da União a deliberação 09/80, concedendo anistia às pessoas físicas que exercem atividades físicas no País. A determinação vem do Conselho Nacional de Desportos (CND), em homenagem à primeira visita do papa João Paulo II ao Brasil, no mesmo ano. Assim sendo, o goleiro fica livre de punição.

Serginho Chulapa também se beneficia. Uma semana antes da treta corintiana, o centroavante entrara em campo pelo São Paulo, no Campeonato Paulista, contra o Comercial. Confronto complicado pro Tricolor, que perdera por 1 a 0 e ainda vira seu temperamental jogador descontar a frustração no zagueiro adversário Wagner, aos 20 minutos. Resultado: cartão vermelho, dado justamente por Márcio Campos Sales.

Pelo incidente, Chulapa ganhara gancho de quatro partidas. Até a anistia cair dos céus e o redimir.

No Rio, quem agradece a ajudinha é um árbitro. Luiz Carlos da Costa recebe liberação dos 120 dias de punição, dados depois de fugir ao dever do apito. Pois é. O rapaz não quisera saber de trabalhar em Portuguesa-RJ x Serrano, e sequer explicação dera. Mas tudo bem. Milagre bom atende a todas as classes.

Rondônia vê pena ainda maior abonada. Raul Gil, do Ferroviário, agredira um oponente do Ypiranga, e, não fosse a cortesia ao pontífice, só vislumbraria botar uma chuteira no pé novamente em novembro, 260 dias adiante.

Difícil imaginar algo semelhante no cenário atual. Se benevolência como esta fosse concedida no caso Héverton em 2013, por exemplo, a Lusa – rebaixada à Série C de 2015 – teria disputado a primeira divisão na temporada que se aproxima do fim. Faltou Francisco no coração da CBF.

PS: Ironicamente, a torcida do Fluminense costuma pedir bênção ao papa João Paulo II quando a coisa está feia. Seria a explicação pra nenhum rebaixamento recente?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s