Contos e afins => Sábado 13

cometãoDez pras duas da tarde. Tiro a mão debaixo do queixo e levanto da cadeira da Casa do Pão de Queijo. Vou em direção ao painel da plataforma dois, envolto aos últimos pensamentos no sempre lotado Terminal do Tietê.

Inocente, mal percebo que o atraso de doze minutos do busão é um sinal de que aquela viagem não será tranquila. Sábado 13, amigo – a sexta-feira com mais um dia de crueldade acumulada.

Trajado com o manto sagrado, entro na cauda do Cometa, como de costume. Assento 46. Horas adiante, tal escolha se provará um baita erro. Mas devagar com o andor. Por ora, fique com a informação de que, à minha frente, jovem mãe e destemido infante se instalam.

Apita o árbitro, e a partida tem início. O motorista, sadicamente sarrista, dá o tom da questã: sabe Deus quando pisaremos na capital mais fria do País. Rodoanel travado. Nem Capitão Nascimento dando jeito de fatiar, passar. De pronto, recordo do diálogo travado com um senhor,  instantes antes de a cena da plataforma rolar:

– Cê também vai pra Curitiba, né?
– Aham.
– Quanto tempo que leva na estrada?
– Ah, entre seis e sete horas… Até as nove, tamo lá.

Não, piá. Até as nove vocês não vão estar lá.

Pois bem. Engarrafamento encarado e vencido. O triunfo me sobe à cabeça cansada. Percebo ser observado pelo menininho da poltrona 44. Não ligo, relaxo e fecho os olhos. Seis minutos de soneca da boa, até ele mostrar seu vilanesco superpoder.

Freddie Mercury choraria de inveja. Em 23 anos de existência, jamais presenciei agudo tão potente. Costumo tocar guitarra a altos volumes quando de boa na lagoa, mas olha… Os decibéis alcançados pelo guri são inéditos entre os terráqueos. Juro.

Parcialmente surdo, ponho a mente em ordem ao constatar a proximidade de Registro. Vinte minutos pro intervalo do cotejo.

Plunct.
Plact.
Zum.

Raul Seixas? Nada, é a roda do ônibus estourando mesmo. E dê-lhe atraso e grito do representante mirim do cão.

O relógio aponta seis da tarde, e entra em cena um novo personagem. Típico zica. Cinco prováveis anos e a certeira face sorridente, daquelas que fazemos quando prestes a aprontar. De súbito, o semblante da criatura muda. O motivo se dissemina instantaneamente pelo ar do veículo: um inconfundível flato. Medalha de ouro seguramente, fosse produção de metano um esporte olímpico.

O tempo não para. O vento sopra e se renova. Elevo aos mãos ao céus, o pneu é trocado e o Santo Graal surge como um oásis no horizonte. Agora vai.

Consigo escutar as gargalhadas de São Pedro, enquanto um festival de raios no céu da Régis Bittencourt torna o cenário assustador. Claridade intermitente entre as nuvens do poente. Parece a equipe de Jack Bauer caçando inimigos do Estado via helicóptero. Não é apenas chuva.

Os obstáculos do Além chegam ao fim. Diferentemente do gogó da criança à frente, que segue afinadíssimo no tom sem Dó. Fito a responsável pelo bacuri, porém a pobre aparenta estar num universo paralelo. Os pêlos auriculares dela, coitaditos, devem ter se esvaído com o tempo.

Dez e meia da noite, e o jogo se encerra nas cercanias da Vila Capanema. Sem Paranito em campo, é a Rodoviária quem recebe os sobreviventes da nave louca Halley.

Ouço um gritinho, acompanhado de uma risada malévola e premiado com uma nutritiva e cheia mamadeira. Nem preciso pensar muito pra concluir de quem foi a vitória desta peleja interestadual.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s