Contos e afins => Pesadelo

celebscry-13Adamastor quase atropelou a vizinha de gôndola. Apressado como de costume, ignorou solenemente o carrinho transversal ao seu e mandou bala no acelerador imaginário do bólido mercadológico. Se não viu o tal túnel branco, a mocinha de certo passou rente. Jamais ousaram lançar mão de tamanha velocidade perto de suas compras.

A pista do Condor era pequena demais, e o destemido Schumacher das Araucárias ganhou as ruas do Bom Retiro tão logo abandonou os boxes – ou melhor, o pedágio.

Mas aquela aflição seguiu espantando quem lhe via. Por que um meia-idade sairia correndo de terno e tudo por aí? E com meia dúzia de sacola na mão?

Uma hora o MRU entraria em repouso. Fernandinho, conhecido nos arrabaldes por roubar tilápias na peixaria Paraíso, foi o responsável pela proeza. Munido de audaz carrinho de rolimã, capotou Adamastor no fim da descida da Carlos Pioli. O guarda de trânsito da região, testemunha ocular, limitou-se a rir, ignorando as rodas carecas do veículo do guri.

O engravatado começou a chorar. Desespero, mesmo. “Não vai dar tempo. Não vai dar teeempo…”. O criminoso ficou curioso:

– Que que foi, moço?
– Preciso voltar logo pra casa. Uma coisa horrível está pra acontecer!
– Mas o que?
– Não dá pra explicar! Preciso tentar impedir!

Ignorou o sangue escorrendo pela perna (calma, não era dele, e sim da picanha que carregava) e seguiu o tão breve quanto pôde. Driblou olhares, bicicletas, piás malucos, até enfim chegar ao seu destino. Vinte minutos de apreensão, até o temor se tornar real.

Ao abrir a porta de casa, viu o que tanto evitou. Caiu de joelhos, no meio da sala. Os filhos começaram a chorar. Inácio, o mais novo, não aguentou. Soluçando, clamou pelo perdão:

– Pai…
– Não acredito! Não acredito! Por que, meu Deus? Por quêê?
– Desculpa a gente, pai… Não é o que você tá pensando…
– Traição, e na minha própria casa?
– Não vai acontecer de novo, pai…
– Não sei o que dizer. Só sentir.

Pálido, Adamastor juntou as sacolinhas condorianas e saiu. Nem fechou a porta, tamanha a decepção. Sabia desde ontem que aquilo aconteceria, quando pegou a mulher Valdirene falando de forma suspeita com um amigo, ao telefone. Até mesmo o horário do incidente lhe era familiar. No âmago, porém, ainda alimentava a esperança de que tudo fosse invenção de sua carnívora cabeça.

Dirigiu-se ao lar do amigo Durva, e juntos saborearam a picanha outrora mencionada. A cada garfada, o desapontado pai derramava uma lágrima e tentava esquecer a imagem de sua família comendo peixe e frutos do mar no almoço. Tremendo pesadelo.

Anúncios

Uma resposta em “Contos e afins => Pesadelo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s