O sapatênis e a ode ao espetáculo na mídia esportiva

djoko agassiFã de tênis desde que Gustavo Küerten disputava títulos no saibro sagrado de Roland Garros, me submeti no início de 2015 a um experimento interessante: assistir ao Australian Open lendo a autobiografia de Andre Agassi no contra-turno dos jogos. Coincidentemente, terminei o livro no mesmo dia em que Novak Djokovic bateu Andy Murray e encerrou o certame em Melbourne.

Comparando o que li com o que vi, cheguei à triste constatação de que a imprensa segue cometendo os mesmos erros de décadas atrás, em se tratando do ambiente esportivo.

agassi 1990Desde que se tornara profissional, em 1986, até encerrar a carreira vinte anos mais tarde, Agassi conviveu com rótulos. Prejulgamentos baseados na aparência. Primeiro, ele era o punk cabeludo das roupas chamativas, cuja preocupação seria chocar com sua rebeldia e não jogar tênis.

A personificação do Imagem é tudo (bordão de um comercial que estrelou para a Canon). O fracassado que não vencia Grand Slams. Afinal, o que importava o cidadão ter três finais de Major nas costas (Roland Garros 90/91 e US Open 90), com apenas 21 anos de idade? Melhor é botar pressão na cachola do guri.

Posteriormente, Andre virou o tenista acabado, que recusava a iminente aposentadoria no final dos anos 90. Porque né, um quase trintão claramente não pode manter um bom nível – discurso modificado tão logo ele triunfou no Aberto da França de 1999. Aí, virou exemplo de “reinvenção”.

Com o passar dos anos 2000, novamente foi visto como um aposentado que se recusa a parar. Mais três títulos de Slam nas costas (Australian Open 2000/01 e 2003), além de outras duas finais na década (US Open 2002 e 2005, no alto dos 35 anos), pouco importaram.

agassi pirateTá certo que o rapaz deu bastante lenha aos críticos. A participação no comercial da Canon certamente não ajudou sua imagem frente ao público. Mentalmente inconstante sobretudo nos 10 anos iniciais de circuito, Agassi realmente se preocupava demais com o visú.

Por anos, entrou nas quadras utilizando perucas, bandanas e bonés para disfarçar a calvície precoce. Inclusive no Australian Open de 1995, torneio em que estreou a cabeça raspada ao mundo, atuou usando um lenço cobrindo a cachola.

Nada disso exime a galera da comunicação esportiva dos equívocos, porém. Com 18 anos, o norte-americano já tinha no currículo as semifinais de Roland Garros e do US Open. A imprensa, entretanto, o massacrou sem dó até conquistar um Slam, Wimbledon, em 1992. Críticas que lembram às destinadas recentemente a Andy Murray, que só encontrou um pouco de paz na temporada 2012, quando triunfou nas Olimpíadas e levou o US Open. O guri tinha sido finalista do Aberto dos States com 21 anos, em 2008. Nada que servisse para o pessoal raivoso dos jornais e revistas.

murrayMurray também causou furor desnecessário quando encarou Thomas Berdych nas semifinais do último Australian Open. Os meios de comunicação tripudiaram em cima do fato de o treinador de Berdych ser ex-comandante do britânico, alimentando uma polêmica que refletiu no desempenho de ambos no confronto. Sobretudo no primeiro set do cotejo, foi visível a tensão entre os dois, que se encaravam a cada ponto conquistado.

Até mesmo a escolha do tenista do Reino Unido por ter uma treinadora mulher, a ex-número 1 do mundo Amélie Mauresmo, repercutiu na mídia. Infelizmente, este erro não é primazia do sapatênis esportivo, muito preocupado em causar polêmica, e pouco preocupado em informar. A sociedade fundamentalmente machista ainda está aprendendo a lidar com a ascensão feminina. Quem sabe a parceria Murray/Mauresmo não abra um precedente ao futuro?

Quem sabe em breve deixemos de ver um entrevistador pedir à Eugenie Bouchard dar uma voltinha, após vencer uma partida, e sim foque em estilo de jogo? Quem sabe uma vitória dela, em si, seja repercutida sem o emprego da palavra “musa” ou das declarações que dera em 2014 sobre Justin Bieber? Quem sabe perguntas pós-jogo e em coletivas façam os atletas pensarem, ao invés de darem respostas óbvias e previamente elaboradas? Quem sabe o entretenimento fique em segundo plano? Quem sabe o sapatênis perca espaço para a verdadeira comunicação?

Imagem não é tudo. Rótulos e estigmas sociais, muito menos.

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