Quando George Harrison e Bob Dylan se uniram e criaram o clássico I’d Have You Anytime

dylan e harrison1968 foi um ano de mudanças no mundo da música. Enquanto George Harrison usava o restrito espaço como compositor nos Beatles pra se emancipar da sombra Lennon/McCartney, a união fraternal da banda ruía. Do outro lado do Atlântico, Bob Dylan sofria de um inédito e severo bloqueio criativo.

Como os dois poderiam sair do buraco? Simples: juntos. No dia de ação de graças.

Influências

Harrison e Dylan desenvolveram forte amizade a partir de 1964, quando o guri do violão conheceu o quarteto de Liverpool. A personalidade reclusa dos dois casou perfeitamente.

Na aventura espiritual de George e companhia, no início de 68, Blonde on Blonde foi o único álbum “ocidental” levado pelo guitarrista à Índia. Fato que mostra a influência de Bob no rapaz.

À época das gravações do White Album, Harrison passou a estocar músicas. Isn’t It a Pity, composta em 1966 e previamente rejeitada em Revolver (66) e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), seguiu no limbo. Not Guilty, outra pérola, chegou a ser trabalhada no sucessor de Pepper, mas acabou fora da lista final.

Em meio ao vazio de inspiração pós John Wesley Harding (67), Dylan se distanciou do mainstream e dedicou-se à família. Sabendo que George estava nos EUA pelos idos de novembro, convidou-o a passar o dia de ação de graças em seu lar (Bearsville, Nova York).

dylan e harrison 2Criando em parceria

Inicialmente relutantes, os dois pegaram violões e mandaram bala. O anfitrião queria fugir do approach padrão que utilizava, dois ou três acordes básicos. A falta de confiança, porém, o ameaçava de botar a bola em jogo.

O convidado, então, o atiçou. Tocou uma sequência de sol a lá sustenido, com sétimas maiores (bastante empregadas na MPB, porém atípicas ao pop anos 60). Gostou do que fez e elaborou alguns versos:

Let me in here
I know I’ve been here

Let me into your heart

Dylan não resistiu ao encorajamento e respondeu:

All I have is yours
All you see is mine

And I’m glad to hold you in my arms
I’d have you anytime

Nasceu assim a canção I’d Have You Anytime. Um hino ao companheirismo da dupla.

Estava encerrado o jejum do dono da casa. No ano seguinte, 1969, Bob voltou de vez à ativa e lançou Nashville Skyline. No trabalho, I Threw It All Away apresenta arranjo mais complexo que o habitual do cantor. O thanksgiving com George parece ter surtido efeito.

all things must passA recíproca também foi verdadeira. Ao ver o amigo com a família, vivendo de acordo com termos próprios, o beatle místico reavaliou o próprio senso de felicidade. Largar Lennon e McCartney e ter espaço pra controlar sua música? Ideia interessante…


Contornos finais

Já voando solo, em 1970, George escolheu justo I’d Have You Anytime como faixa de abertura pro álbum triplo All Things Must Pass – seu primeiro fora do Fab Four.

Deixou as linhas de Dylan como refrão e arrematou a letra. Na hora de gravar, só pra deixar a coisa ainda mais épica, chamou o brother Eric Clapton pra tocar a guitarra solo e fechar o abacaxi.

O resultado segue abaixo, procê conferir. E dar vários repeats, porque a coisa é fina.

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