Contos e afins => A difícil arte de acordar

tagima dallasCerta vez meu tio disse que as cordas do violão têm sentimentos. Achei pitoresco.

Hoje faz quatro meses que não toco. Não por falta de vontade. É que arrebentou a mizinha na última semana de dezembro, e preguiça e dor me dominam desde então. Ainda não criei coragem pra atravessar as quinze quadras que me separam da loja mais próxima.

Tínhamos história, aquela tirinha de metal e eu.

Suor nas mãos, pra mim, é como água no deserto. Meu corpo se nega a produzi-lo, por isso passo anos usando o mesmo encordoamento. Então calcule o pânico quando, após comprar um jogo de marca e colocá-lo no instrumento, vi um sexto dele se partir instantaneamente em dois. Vermelho vivo nas veias se transformou em amarelo-anemia.

A calma só voltou depois de muito revirar a casa, e encontrá-la. Ela, há tanto posta na gaveta.

Nosso caso vinha de oito anos atrás, quando a botei no Leucádio – minha viola de aço – pela primeira vez. Usei-a por duas semanas. Quatorze dias incríveis, até ganhar de um amigo um encordoamento importado, cuja embalagem custava mais que os livros na estante. Cavalo dado não se olha os dentes, então troquei ela e as colegas, renegando-as à escuridão do criado-mudo.

O calendário da vida seguiu e provou que beleza não põe mesa. Cada bela estrangeira se desfez, uma por uma, e as renegadas conquistaram segundas chances.

Menos a mizinha, azarada. Sua rival forasteira foi justo a única a ter vida longa e próspera. Até o destino mostrar que assuntos pendentes devem ser resolvidos.

O reencontro foi difícil. A cordinha, magoada, não quis sair da caixinha. Implorei por perdão, jurei amor eterno e deu certo. Lá estávamos nós juntos outra vez. Como se o tempo tivesse pausado e nosso som eternizado.

Por 90 dias, estive no céu. Por que raios a troquei no passado? Altas músicas, inspiração a mil. Bom demais. Mas felicidade assim só vem com prazo de validade.

Bem curto.

E assim foi. Inesperada, a oxidação arrombou minha porta e a levou. Dez milímetros de fragilidade crescente, até a rara gota de suor surgir e quebrá-la em pedaços. Ah, a dialética sonora…

É difícil esquecer corda tão importante. Não sou como Leucádio, que as trata com indiferença. Pra ele, não importa o meio. Apenas o fim. Ressoar e nada mais.

A cada dia, acumulo energia criativa. Às vezes, me pego levantando da cama e indo direta e inconscientemente ao violão. Ainda não parece certo, porém. Negócio é seguir com calma, pois vai acontecer quando tiver de acontecer. As quinze quadras, afinal, continuarão no mesmo lugar.

Nem só as cordas têm sentimentos, tio. Violonistas também.

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