Contos e afins => Na igreja

céu azul

(Crédito: Guilherme Mattar)

– Perdoe-me padre, pois pequei.
– De boa.
– Ahn, oi?
– De boa, cara. Susse.
– Como é que é? Você não tá brabo?
– Nada, fi. É como diz o poeta: Todo mundo erra sempre, todo mundo vai errar.
– Peraí. Isso não é um pagode?
– Revelação. Dos bons.
– Olha… Desculpa o meu espanto, padre, mas é que eu esperava que você lidasse com minha confissão de um jeito mais… Mais…
– Eclesiástico?
– Exatamente! Eclesiástico.
– Entendo, bro. As senhorinhas da novena reclamam toda hora.
– Hmmm…
– (…)
– Bom, já que tamos aí, posso te fazer uma pergunta?
– Manda.
– Você sempre foi assim? Com essa abordagem, digamos, ousada e alegre?
– Ná… Até o meio do ano passado, eu fazia o tipo “ajoelha no milho e reza”, padre padrão. Aí rolou a convenção.
– Convenção?
– É, no Vaticano. Chamaram os padres da América Latina e mostraram uns power-point bem loco. Gráficos assustadores, dizendo que as pessoas não estão mais indo pro Céu.
– Sério?
– Treta suja, bicho.
– Ué, mas elas tão indo pra onde? Pro Inferno? Já vou dizendo, padre, não sou desses.
– Inferno nada. Tão se mudando pro Purgatório, por vontade própria.
– Por quê?
– No Purgatório, cê não precisa se preocupar com bom ou ruim, esquerda ou direita. Só se vive. Toca o bonde. Anarquia que até arrepia, só de pensar numa ziquezira dessas.
– Eita!
– Eita mesmo! Eu e uns parças tamo agora nos comprometendo a evitar que gente nova vá pra lá. A galera tá vivendo tão de boa naqueles lados que, como nada ruim acontece, pararam de rezar! Cê acredita?
– Mas o Céu não tem essas liberdades? E o Inferno?
– Não, porque o pessoal lá de cima tem que fazer média com o dono, sabe? No Inferno a coisa é mais pesada, quente. Mas a história segue lógica bastante similar.
– Hmmm… [reflete por um bom tempo, digerindo o que ouviu] Padre?
– Fala, jovem.
– Quer saber? Esquece minha confissão. Tô tranquilo com meus pecados. Até mais.

Dirige-se à porta, quando ouve a grave voz do clero:

– Rapaz, você não está se esquecendo de alguma coisa?
– Eu? Do quê?
– Dos 487 Pai-Nossos que tem para pagar! Só sairá daqui quando terminar a penitência!
– Mas o senh…
– Silêncio, aqui é um local sagrado. Estarei de olho!

(Não obteve êxito na quitação da dívida. Nos vinte minutos em que se debateu, tentando rezar, só conseguiu pensar na letra de Velocidade da Luz).

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