Contos e afins => Clube da Esquina

clube da esquinaPerguntei pra ela qualera o segredo de não ter medo. A resposta enigmática: “saia deste cais”.

Também me disse, antes de partir, pra seguir pensando, pois seria melhor que nada. Parei então de tentar significados obtusos e mantive a pegada atrás do elixir.

Mentira. O que fiz de verdade foi outra cousa.

Menti. Como agora.

Talvez fosse um gosto de Sol, sei lá. Problema é que não dava pra chamar o Ícaro e tirar a prova real.

Olhei aflito ao céu, por fim, e vi uma nuvem cigana parecendo ponto de exclamação – aquele formato de trem de doido que as formosas têm. De repente, ela voltou, deu um sorriso malicioso e alertou:

“Nada será como antes. Agora que você viu a canção do vento, o único jeito de se emendar é pegar o trem azul. Mas só o azul! Não me vá entrar no amarelo, pelo amor de Deus!”.

Ah, cara… Se tem uma coisa que me deixa louco é esse bando de frase solta sem álcool pra ajudar a encontrar o sentido perdido poraí. Não sou bom de me virar sozinho. Razão pela qual vivo nas estrelas, pra ver se, lá no lado escuro da noite, perdido na abóboda, San Vicente não me sopra respostinha esperta.

Ter a vida onde ela é. A vizinha da minha ex-vizinha, Lilia, adorava essa frase. Ouviu tal dia no rádio e papagaiou desdentão. Única razão de eu reter isso era o vaso sobre a mesa da citadina, cor de cravo com canela do lado.

Quando Lilia deixou o coração bater sem medo, percebi o quão lindo era o girassol dentro do vaso. Um girassol da cor de seu cabelo. Guapíssimo.

{Senti que divaguei agora… É que vou lembrando coisas do nada, nem ligue}.

Bom, voltemos a ela.

Ela (a primeira ela desta história) adorava contemplar a paisagem da janela. Geniosa que só, toda vez que os pais a mandavam tomar prumo na vida, sugava o ar de toda a região duma vez só, quase matando os povos ao lado e dando o recado:

“Me!

Deixa!

Em!

Paz!”.

Ter vontade de nada fazer e não poder fazer nada é, de fato, um das duas cruzes mais complexas de se carregar nessa existência. A outra? Tentar descobrir o segredo de não ter medo.

Quer saber? Acho que ela sente minha ansiedade, e é por isso que não revela o mistério. Se eu me fizesse de indiferente, empreendendo menos saídas e certamente dando menos bandeiras, é certeza que me responderia de pronto, sem acalento, sem demora ou remorso.

Mas se ela de vera fizesse isso, eu inventaria tantas dúvidas e subterfúgios pra me debruçar ladejando e papear ao vento? Gostaria tanto de ouvir seus passos marcando o antipó e soltar um “bom dia, como vai você?”.

Rá! Não mesmo.

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