Contos e afins => Pool guy

pool-guyNa casa da piscina, tudo parece um sonho. Bonito a ponto que até medonho. Claridade bate forte, refrata d’água aos espelhados vidros forrando as paredes. Nunca tive colchão de ondinha, admito, mas imagino ser a mesma sensação que dá vendo o lá pra cá líquido nos dias de verão.

Só sendo louco pra voltar.

Pouco tive antes da sorte grande me tirar pra dançar. Lembro qual hoje mamãe bradando, apontando pro Divino, pedindo providência. Rezando prover a casa com decência. Ecoava ainda mais alto na hora de dar bronca, puxando orelhas e recriminando minha ruga nos dedinhos. Culpa que ela atribuía ao rebento – quando na verdade devia questionar o vizinho da frente. Nada tinha o mancebo que revelar ter adquirido uma mil litros. Horas e horas boiando junto dos mosquitos…

Só sendo louco pra voltar.

Na casa da piscina, o tempo desafia Cazuza – para sim. Calmaria é tamanha, juro: ouvir átrios e ventrículos dos passarinhos é mui possível. Esperar a noite chegar regado a protetor e sorriso no rosto? Pouco esforço pede. Nem o recolher solar leva o calor embora. Fica mesmo só a lembrança.

Só sendo louco pra voltar.

Sonhos, sonhos, sonhos… Contaram na TV, certa vez, nossa geração não quer saber de trabalho. Busca lazer e prazer e dinheiro juntos como passe de mágica. Boa teoria, reconheço. Mas se você cria da Contiola, bicho… Dá um tanto de ombros a ela.

Contiola significa “peso” no dialeto donde venho. Se nasce sabendo. Tipo dedo do meio, sabe? Adultos nunca explicam o que quer dizer, e você aprende na marra. Criança manja.

Na casa da piscina é difícil entender quem patrão e quem amigo. Tapinhas de parabéns vem e vão, isso sobe à cabeça. Nas festas se vira atração, o cara exótico lá de baixo que interage com os do berço de ouro. Sorrisos bobos, risos das piadas mais toscas… Sou a razão? Ou apenas o compartilhamento? Tanto faz. Minha boca não liga.

Só sendo louco pra voltar.

“Me conta do ~~guia de sobrevivência~~, velho”. Volta e meia eles pedem, enquanto o álcool começa a fazer efeito nas cabeças.

Primeiro, passos largos e lentos.

Segundo, calma. Vai na boa.

Terceiro, ouvido atento. Qualquer barulho maior que a lua você para.

Quarto, nunca, nunca tira o olho do vidro. Se fumê, esquece. Sem insufilm, beleza. Segue em frente.

Era assim.

Contiola de papai e mamãe, se jogava pipa e peão. Contiola minha, se depenava carro dando sopa na rua. Nossa coisa de piá.

Na casa da piscina o vento da deboeza maroleia as luzes dos cabelos. TV tela plana, frigobar rente à mesa. Mesa de bilhar impecável. Só brilha menos que o trequinho pra tirar alga da 50 metros ali fora. Vergonha, né? Nem sei o nome. Trocentas vezes já me dito. Apreendido? Pergunta se foi.

Só sendo louco pra voltar.

Polícia vira e mexe xinga quem prende. Ora o vagabundo onipotente, ora maior que a lei, ora despreza a ordem, acha que a hora nunca vai chegar… Várias opiniões formadas sobre.

Na real? Não é bem assim.

Pelo menos não pra mim.

A nós parecia profissão. Aliás, era. Contiola, fi. Contiola não dava opção.

Prisão tão comum era que nem ilusão se tinha. Você certo ficava que rodar ia também.

Louca e linda, a namoradinha do dono da casa. Ela é diferente. Não pense que sou desses – nunca nada teve entre a gente. Nem precisa. A gente se entende. Ela pisa na sala de estar como quem pisa no start da piscina.

Só sendo louco pra não admirar.

Os tempos de cana ensinam a viver. Papai devorava livros antes do bairro virar no que há pouco contei. Passada a tristeza de ver a cria na cadeia, imagino, teria certo orgulho, pois comecei também a ler. Corri olhos e linhas qual louco. Pingava. Dos outros detentos pouca palavra – tristezas, celas separadas. Contato raro, sono idem. Se me perguntar quanto tempo fiquei, honestamente não sei. Acordado parece que sempre fiquei.

Louca e linda, a namoradinha do dono da casa. Podre de rico o cara e não tão velho assim, apesar da morada forrada de beleza. E tamanho. E Sol. Dizem tinha traquejo nos tempos de caça. Não duvido. Se fisgou quem fisgou, mesmo década a mais nas costas, merece todo o sincero respeito.

Só sendo louco pra não admirar.

Ironia marca a alma. O conceito de trabalho veio encontrar os dedinhos enrugados justo no xilindró. Fiz de futebol bola até o calo arder, lendo lendo lendo enquanto mais bola não ia fazer. Bons tempos, guardadas as proporções. Dom Casmurro, Vidas Secas, biografia do Nadal e capotão a dar e vender.

Louca e linda, a namoradinha do dono da casa. Com ela travei mais conversas do que qualquer mortal na face da Terra. Tem a minha idade, 20 e tanto, só faculdade, livre na parte da tarde, enquanto o consorte no home office controla metade da civilização cristã ocidental do oeste do sul do planeta. Tão fácil de falar… De mim arrancou tudo o que aqui relato num passe de horas.

Só sendo louco pra não admirar.

Mamãe pensa que sou cara de sorte. Quem outro volta à rua empregado? É. Papai teve diferente destino. Das tardias barras, direto à lágrima dos que deixou – morreu de doença cansada longe da liberdade. Longe das vistas de quem amava.

As bolas feitas não foram à toa – entrei via elas ao clube da zona sul. Virei gandula dos campos de sub. Conheci gente interessante. Presidentes, bicheiros cheios da nota, caboclos aproveitando aulas grátis. Educadíssimos, egos infladíssimos – felicidade pra deles? Demonstrar patamar elevado. Poder. Poder de tudo um pouco.

Do lado dos campos tinha piscina. Cresceram as ruguinhas, saltitando. Dessa vez não plástico mil litrão. Era a coisa real. De competição de natação.

Louca e linda, a namoradinha do dono da casa. Todo dia, meio-dia-e-vinte-e-três, vejo o rabo de olho puxando a cortininha da copa e fitando a estufa onde fiz aposento. Tão sorridente, quando isso executa fica séria. Impávida. Muda. Assim que retribuo, voa a cortina e fecha a cena.

Na casa da piscina reflete agora a alma. Encontra o balançar das ondinhas nos vidros. Penso no último fitar trocado. Sem malícia. Platônico. Só de imaginar dá no pomo de Adão nó, mas adoraria juntar forças e fazer aquela indagação. Aquela que desde que a conheci quero perguntar. Se ela em mim viu o mesmo que sinto vendo na água o ondular, e por isso ao dono do clube convenceu a me contratar.

Está bonito o momento a pino, dá vontade de nadar. Tenho permissão. Sinto medo. Medo de tudo acabar e a era Contiola voltar. Lá o guri tinha apenas a piscina do vizinho. Nada de Sol a brindar.

Ah, que o tempo faça tudo. Acelere. Até pare se quiser. Solamente não retroceda, uma vez que

Só sendo louco pra voltar.

Não admirar.

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