Contos e afins => Blues do Iniciante 2

frejat e cazuza 1982

(Foto: Programa Boa Noite Brasil, 1982)

Eu queria tanto voltar àquela noite fria, parar apenas um instante. Bradando aos quatro ventos, sem me importar com o relento típico, juvenil, desenfreante. Afinal, em caso de acidente, você culpa a criança dirigindo ou o adulto que a botou no volante?

Julgava todos ao redor iguais, com suas caras raras de tacho banais. Imaginava aos Céus não haver nada melhor que o momento dilacerante. Olhava pra você e me via embaçado, translúcido na íris da verdade. Fazendo lar na melhor das casas. Meio bobo, em realidade, sem buscar outra cidade.

Como um bom iniciante é.

Como um bom iniciante.

O cheiro do abismo no café da manhã contemporânea traz à tona essa memória. Memória do que mudou todo o nosso caminho, toda nossa história.

E eu não paro de pensar, de remoer e chorar pela falta de nexo tátil. Sabia bem o que queria e em ti também via essa vontade. Só não sabia que não, não seria nada. Falharia. Porque não há Sol sem chão, não há luz sem escuridão, tampouco poesia sem relato vindo da ação. Enquanto isso, a noite fria já foi, você também. E o que sobrou foi o nó que não mais sai da garganta típica. Vermelha de sangue seco e raiva contida híbrida.

Como um tom iniciante é.

Como um tom iniciante.

Mesmo nas coisas triviais há quem veja beleza. Mesmo nos gritos guturais há quem sinta sutileza. Quem sabe encarando tudo assim, como um trago mal acabado e safo, possa encontrar meu descanso remédio. Pois não rola dia bom ou ruim que não calhe de acabar no bendito tédio.

Do calor do amor, da vida, cada um sabe do seu. Recobrando tais conversas perdidas, realizo a compreensão de que você sempre soube aonde a coisa podia e não chegaria. Talvez, reflito, tenha sido a boa e velha ingenuidade que me conduziu a acreditar na benesse do reencontro, na renovação do laço, na repaginação das linhas tortas que melhor ficariam definitivamente acabadas logo esboçadas no traço. Mesmo assim, entendendo além do princípio ao fim, ainda revisito o ocorrido saudoso, bonito. Substituindo o rancor partido pelo nostálgico do não vivido. Forrado de “será” sussurrado, gelado, ao pé do ouvido.

Como um som iniciante é.

Como um som iniciante.

Misturo sustenidos maiores com sétimas menores ao pé da letra, investigo cada parte do cérebro indefesa. Não acho que faltou impaciência nem mesmo decência, afinal é o que se é. Tal ato desafiador do melódico, metódico, pode ser fruto dessa estranha sensação que o passado nos causa quando escorrido há tempo.

O que era bege de repente vira ouro, e a água com gás refresca como gol de coca-cola. Aí tento maldizer – não consigo. Não é assim que orna. E as palavras se repetem qual o poeta nos anos 80 se desculpou por fazer, contudo não há escapatória, fatalmente repetições vamos exercer.

E retorno doidinovo, uma roda de rolimã toda gasta às laterais, sedenta pra descer novamente da ladeira rumo às Gerais. Retorno ao grito abafado, pedindo outra vez, e outra, e outra, dose extra de rouquidão. Ansiando o reencontro, enxergando o melhor eu em olhos outros, espaçado pelo breu. Pedindo bis. Palpitado. Emocionado a cada prova. A cada concessão. A cada fato. A cada instinto. A cada nota.

Como um dom iniciante é.

Como um dom iniciante.

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