Ascension (1966) => O caos controlado de John Coltrane

john coltrane ascensionAmar ou odiar. Não há como ser indiferente a discos da ousada seara de Ascension (1966).

Nele, John Coltrane mergulhou fundo na verve espiritual, marca do último período de sua carreira. Mergulhou fundo em algo tão denso e contínuo, movimentos coletivos, livres e intuitivamente conjuntos, que nos remete à ideia de ordenar o caótico da natureza humana.

O dedo de Ornette Coleman é claro. A dissonância dos trabalhos do cara pouco a pouco entrou na composição de Trane, progressivamente mais destemida e religiosa. Se o octeto de Coleman fizera o que fizera em Free Jazz: A Collective Improvisation (1961), John poderia, ele mesmo, ir além também.

Ir além dos flertes experimentais de A Love Supreme (1965). Além do saxofone declamando poemas. Além da formação enxuta, dos quartetos. Além do convencional.

Jazz solto. Um único exercício, cacofônico, grandioso. Com uma formação digna de big band: trompetistas, sax alto e tenores, baixistas. Tudo assim, no plural, acompanhados por piano e bateria, alternando solos e tomando direções conforme soprasse a inspiração. Do idealizador, apenas uma instrução – terminar a peça num crescendo.

john coltrane ascension_

Tal qualquer obra do período transcendental de John Coltrane, a liberdade formal em Ascension dividiu opiniões. Ainda divide, passadas cinco décadas do lançamento. Alguns o adoram. Outros, não tão afeitos ao free jazz, o rechaçam.

Polêmicas à parte, o álbum segue um dos mais influentes da história da música. Mais que isso: segue de testemunho à luta de um homem almejando a ascensão. Um homem de corpo calejado pela heroína e pelo álcool, no encalço do poder divino. Um homem, ao menos enquanto durasse o disco, controlando o caos.

PS: Há duas versões de Ascension. A chamada Edition I dura pouco mais de 38 minutos e compreende o segundo take da banda de Trane. A Edition II, preferida pelo mentor do projeto, se aproxima dos 41 minutos e constitui a tentativa original.

FORMAÇÃO

Freddie Hubard e Dewey Johnson – trompetes
Marion Brown e John Tchicai – saxofone alto
John Coltrane, Pharoah Sanders e Archie Shepp – saxofone tenor
McCoy Tyner – piano
Art Davis e Jimmy Garrison – baixo
Elvin Jones – bateria

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