Chico Buarque, Teatro Guaíra => O profundo azul no friozinho de Curitiba

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(Foto: Guilherme Mattar)

Nem choro nem vela. A lua revela: está finito o veranico 2018. Julho manteve-se benevolente, bondoso realmente, mas doce humor tem limite. O friozinho tinha de voltar no mês seguinte.

OK. Saio. Curitiba pode lidar. As brusas até gostam de flanar sábado à noite, atualizar papo com os amigos casacos – mesmo que, movidas pela pressa, contem tanta cousa quanto uma brisa.

Adiante. Dona São Francisco brande música instrumental a plenos pulmões. “Fique com o troco, seu animal”, anuncia-se o próximo número. Pena. Curtiria acompanhar. O ponteiro porém urge no 4 de agosto.

Quadra ao flanco, silêncio. Não, não. Assim não! O muro azul se indigna e bota a boca no trombone pichado: “Abaixo Temer e sua quadrilha”. Tão machucado o muro azul… Tão rara a cor azul… Azul cujos povos antigos corriam longe pra conseguir. Demoravam. Ralavam. Obtinham. E adoravam.

Azul potente. Que quando vem não fala. Ecoa denso. Lá no fundo.

Ufa! Agora o Teatro Guaíra é realidade. Maravilha! Bom lugar, boa visão, opa… Bela companhia ao lado. Óculos aro grosso, moderninha, branca veste, negras madeixas puxadas detrás, impacientes. Morena de fazer poema, cordas do capuz lá e cá, espiando as bordas do palco. Vislumbrando fitinhas douradas no teto. Como se delas cobrando o atraso de 14 minutos do sibilo inicial.

E aí? Aproveito o extra? Gracejo a morena? Posso? Devo? As cortinas abrem e tudo fica claro. Tal peleja? Já perdida. De antemão. Só tem olhos a morena ao violão de Chico Buarque.

Olha o azul na área, passando, gingando… Virando verde, vermelho, preto, por vezes sumindo no telão da turnê Caravanas – primeira a nos visitar desde 2011. Sempre voltando. Luz forte. Enchendo o (talvez lotado) auditório de pedidos. Pedidos “Lula livre!”. Confrontados de início, engrossados doravante em coro quase uníssono do público. O qual nem uma microfonia pontual perturbou.

Uma hora e quarenta e dois minutos depois, missão cumprida, 22h56, parte o rapaz de Hollanda. A morena também. Descansam satisfeitas as fitinhas douradas no teto. Nas pedras noturnas, lado de fora, o domingo agasalhado se preocupa apenas em nascer. Cada rua no seu ritmo. No seu grito.

Por ora, o recado está dado. Cantado. Compartilhado. Se não compreendido, diariamente disponível aos olhos buscadores. Buscadores do retorno.

E quando o retorno vier, o muro azul saberá o que ecoar.

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