Roger Waters, Couto Pereira, Curitiba => Entretenimento e consciência juntos em prol da arte

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Interlúdio de Dogs, parodiando o fim do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell (Foto: Guilherme Mattar)

Podemos repartir a arte musical, grosso modo, em dois grandes gêneros: entretenimento e canções conscientes. Aquelas nos ajudando a esquecer os problemas, estas lembrando-os na marra.

Pink Floyd se notabilizou por ambos, amarrando conceitos líricos densos num verdadeiro espetáculo de luzes, sons e estruturas. Pegada que Roger Waters manteve na vida-pós Gilmour, Wright e Mason.

Não só manteve: aumentou. Já nos trabalhos solo da década de 1980, o principal compositor da fase clássica floydiana cercou-se da tecnologia e elevou o tom político em sua obra – o que lhe trouxe a fama de “cara mais chato do rock”, reverberada até hoje por muita gente.

Chato ou não, Roger sempre disse o que acha necessário dizer. Calhou o destino de a Us + Them Tour pintar no Brasil bem nas eleições presidenciais, e ele se posicionou. Neto e filho de combatentes na Primeira e Segunda Guerra mundiais, o baixista britânico incluiu críticas ao discurso de extrema-direita de Jair Bolsonaro nos shows, irritando a maioria do público, anti-PT, que pagou caro (ingressos da pista premium ultrapassavam os R$ 700,00) pra vê-lo em ação. Público que não quis relembrar seus problemas assim, tão nus, tão claros na visão estrangeira.

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(Foto: Guilherme Mattar)

Em Curitiba tudo se repetiu. Um dia antes do pleito derradeiro, a maior parte da plateia vaiou quando Waters enveredou ao ativismo nos arrabaldes do estádio Couto Pereira. O que não o impediu de executar o manifesto mais eloquente de toda sua passagem no país: no clímax de Welcome to the Machine, pouco antes das 22h, o colossal telão salientou as frases “Disseram que não podemos falar sobre a eleição depois das 10 da noite. É a lei. Só temos 30 segundos. Essa é a nossa última chance de resistir ao fascismo antes do domingo. Ele Não!”.

A alusão à notificação do Tribunal Superior Eleitoral, de que comentários explícitos das 22h em diante configurariam crime de boca de urna, transformou-se então em arte. Assim como os vídeos temáticos (às vezes longos demais) do trabalho recente do rapaz, Is This the Life We Really Want? (2017). Assim como a usina ornando o palco na fase Animals (1977) do espetáculo, ou o porco gigante percorrendo o Alto da Glória, observado de cima por outro colega de espécie.

Assim como o prisma de cores, iluminando os quase 42 mil presentes nas faixas finais de The Dark Side of the Moon (1973). O som dos bumbos da bateria explodindo junto à grade, das 21h30 adiante – praticamente três horas, entre paradas e novos atos.

Assim como a fusão de entretenimento e consciência. Cara e coroa de uma mesma moeda.

Assim como a arte, em estado puro.

SETLIST

  1. Breathe (Pink Floyd)
  2. One of These Days (Pink Floyd)
  3. Time/Breathe (reprise) (Pink Floyd)
  4. The Great Gig in the Sky (Pink Floyd)
  5. Welcome to the Machine (Pink Floyd)
  6. Déjà Vu
  7. The Last Refugee
  8. Picture That
  9. Wish You Were Here (Pink Floyd)
  10. The Happiest Days of Our Lives/Another Brick in the Wall pts. II e III (Pink Floyd)
  11. Dogs (Pink Floyd)
  12. Pigs (Three Different Ones) (Pink Floyd)
  13. Money (Pink Floyd)
  14. Us and Them (Pink Floyd)
  15. Smell the Roses
  16. Brain Damage/Eclipse (Pink Floyd)
  17. Wait for Her/Oceans Apart/Part of Me Died
  18. Comfortably Numb (Pink Floyd)

 

PS => Três pequenas falhas técnicas rolaram no supracitado 27 de outubro curitibano: o microfone de voz não funcionou nos primeiros instantes de (se não me engano) Picture That; Roger errou a entrada lírica em Wish You Were Here e um pequeno retângulo amarelo vez ou outra apareceu no flanco direito do telão – notadamente nas passagens da mulher sentada à beira da praia.

Outro detalhe curioso foi a ausência de material solo anterior a Is This the Life We Really Want? e do floydiano The Final Cut (1983), tão associado a Waters quanto The Wall (1979).

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