Contos e afins => Colcha de retalhos existenciais

As coisas mudam.
Passou de mim, como até mim veio, esse episódio na sombra:
você sentada na cadeira de palhinha.
“Posso ouvir o vento passar,
posso falar da tarde que cai,
posso até ficar triste se eu quiser”.
Lá estão as palavras, voando embaralhadas.
“Mas não posso deixar tudo como está”.
(Não havia nada de divertido nela).

O progresso foi lento.
Primeiro, eu não tinha motivos para me barbear – e não era para deixar meu visual na moda.
Foi um choque, além de uma grande surpresa.
“I’m alone and I’m an easy target.
Mas eu sobreviverei aos seus olhos nus”.

É uma sensação vagamente desconfortável, mesmo depois dos milhares de vezes que a experimentei, mas sei que não há nada errado, de verdade:
o tempo é firme e segue em frente.
Ainda estou aqui.

Muita gente se recusou a acreditar.
Os vizinhos andavam para lá e para cá, queimados e sangrando
com o louco martelar místico do ensandecido granizo cortante.
Era assustador e fazia um frio danado,
e ainda assim funcionou.
Poderíamos dizer que o universo improvisa um blues –
and that’s reality.

Bom, todos nós precisamos descansar.
Mas fazer o quê?
Por que precisamos de explicações ou manuais?
Ninguém soube ao certo; ninguém pôde dizer.
Alguém sabe?
– Não.

Brigávamos amargamente.
Para ser franco, achei que era um pouco fora de proporção.
Tinha saudades da mãe.
“Que acinte…”
Eu só queria jantar.
“Filha da puta! Bandido!”
Eu queria ter uma bomba.
“Pai, afasta de mim esse cálice”.
Mas dá saudade,
às vezes no silêncio da noite.
Era sempre uma alegria quando a partida terminava empatada.
Vozes na cozinha.
Um silêncio terrível agora nas noites dos dias de semana.
Em alguns casos a voz e a figura eram uma coisa só.
Gosto de lembrar disso.

Não sei o que mais preciso acrescentar.
As histórias conferem movimento à nossa vida interior, e isso tem importância especial nos casos em que a vida interior está assustada, presa ou encurralada.
Se a fase é boa e as alegrias são freqüentes, não se deixa de pensar na próxima competição.
E o problema é todo esse, não é mesmo?

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