Yesterday => O filme que tinha tudo pra ser, mas não foi

yesterday cartazA promoção pesada em torno de Yesterday fez crer que o filme seria o melhor de todos os tempos, dentre os que tratam da obra dos Beatles de alguma forma. O trailer, com uma divertida comparação da faixa-título à Fix You, do Coldplay, aumentou ainda mais a expectativa. Aí a película estreou no agosto brasileiro que passou… E toda a beleza da premissa básica naufragou, mal utilizada.

O bom início da narrativa só acentua a decepção ao longo dos 116 minutos de trama. Quem já tentou uma carreira nas artes logo vê quão verossímil são as aventuras iniciais de Jack Malik (Himesh Patel). Os perrengues, o público disperso, as oportunidades boas no papel porém duras na realidade… Bastante real oficial, como dizem os jovens hoje.

A coisa começa a degringolar quando o músico Jack sofre o atropelamento que coloca o argumento do filme à baila. Numa referência ao acidente de Paul McCartney circa 1965/66 (que resultou num lábio machucado e dente trincado pro beatle, visível no promo de Rain), Jack, atingido por um ônibus numa queda de luz generalizada, perde partes de dentes e, dali em diante, torna-se o único terráqueo a lembrar-se da existência dos fab four.

resenha yesterday

Paul no promo de “Rain” e Jack após o acidente (Créditos: FeelNumb.com e Youtube)

Outras grandes marcas são esquecidas pelo mundo após o incidente, entre elas a Coca-Cola. Infelizmente, por mais curiosidade que o fato incite, nenhuma explicação do fenômeno é informada ao público, e a Terra nunca mais volta ao “normal” desde então. Temos apenas que assistir e aceitar.

Quando se percebe o único a saber dos Beatles nesta leve distopia, Jack toma as canções dos rapazes de Liverpool pra si, como se as tivesse composto, e faz sucesso a nível global. No decorrer da história, surgem outras pessoas que também recordam da banda, desenhando o conflito-mais-que-aguardado acerca da fraude de Jack. Conflito que, no fim das contas, nunca acontece, frustrando o crescendo da coisa toda. Não fosse o remorso do protagonista, que no fim conta a verdade e desiste do estrelato, poderia o filme ser daqueles do Woody Allen, em que o malvado sem moral nunca sofre as consequências e se dá bem.

HUMOR E AMOR QUE NÃO CONVENCEM

Cabe justo ao personagem cômico a façanha de ser o mais chato em Yesterday. O roadie Rocky (Joel Fry) é tão irritante, mas tão irritante, que se o filme fosse em 3D muitos seríamos tentados a dar socos quando ele surgisse na telona. Suas piadas nunca têm graça, algo recorrente na película como um todo – em especial a insistência dos amigos de Jack em tirar sarro de sua aparência após o acidente. Tudo bem, eles o presenteiam adiante com um belo violão, só que… Né… O cara foi pro hospital, poxa…

A empresária de Ed Sheeran (sim, ele também atua) e de Jack, Debra Hammer (Kate McKinnon), talvez seja a melhor interpretação dentre o casting inteiro, posto que esbarre no desgastado clichê da exploradora-do-show business-que-só-pensa-em-dinheiro. Ed, na pele dele mesmo, não chega a brilhar nem comprometer, porém é seu um dos raros momentos de humor bem-sucedido da história: convencer Jack a mudar o título da balada Hey Jude pra Hey Dude.

E o casal principal? Nele mora uma das maiores falhas do projeto dirigido por Danny Boyle. Se Ellie Appleton (Lily James) logo de cara salienta querer mais que a amizade de Jack, o cantor é quase sempre tão alheio a este sentimento que, ao enfim correr atrás dela, a situação parece forçada demais. E o conflito da relação também não convence: Ellie, que por um bom tempo se dedicou a ser a empresária informal de Jack, tanto o estimulando a continuar na música quando o próprio queria desistir, de repente, no auge do sucesso do rapaz, opta por não acompanhá-lo e continuar morando em Suffolk, onde tudo começou.

Em resumo, Yesterday não aproveita o arsenal de ótimas referências e ideias que lhe serviram de ponto de partida. Sim, há diálogos, nomes de personagens e situações temperadas com o gostoso folclore beatle. Jack canta Help!, por exemplo, como John Lennon – angustiado, pedindo ajuda de verdade por passar dificuldades àquele ponto da trajetória.

John inclusive é revivido na pele de Robert Carlyle, entretanto tudo fica confuso nesta curta passagem. Como no filme em geral – confuso, mal explicado (quando sequer explicado); insatisfatório. A tristeza ao terminar Yesterday é maior do que na comparação com Magical Mystery Tour, o pior lançamento cinematográfico de John, Paul, George Harrison e Ringo Starr. Porque gerações como a minha (chegando aos 30) ganham o benefício histórico de ver Mystery Tour já sabendo tratar-se de um trabalho ruim, recheado de grandes músicas. Yesterday não. Yesterday prometia o mundo. E termina não entregando nada. Nada além de grandes músicas. E da certeza – universal há bastante tempo – de que um planeta sem Beatles perde a graça. Uma pena. Podia mais.

Muito mais.

yesterday jack no topo do hotel

(Aludindo ao rooftop concert de janeiro de 1969, Jack canta “Help!” no topo do Pier Hotel, em Gorleston-on-Sea)

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